São plausíveis e até mesmo louváveis as iniciativas de segmentos da sociedade, de organizações governamentais e não governamentais, no sentido de desenvolverem projetos com jovens de classe socioeconômica baixa. Seja com o objetivo de prepará-los para o mercado de trabalho, favorecendo recursos para o desempenho de papéis profissionais, seja os estimulando a participarem de atividades artísticas e esportivas, estes projetos têm um caráter preventivo: buscam caminhos alternativos à violência, ao consumo de drogas, à prostituição, entre outros graves problemas sociais.
Nesta tentativa de direcionamento para melhores perspectivas de futuro, como se dá a participação do psicodramatista?
Consideramos que o maior investimento deva ser feito nos VÍNCULOS entre os jovens, deles com as organizações, com a família, com a comunidade na qual estão inseridos. À primeira vista pode parecer óbvio demais, entretanto , percebemos que há, em geral, grande preocupação com as aprendizagens técnicas , resultados práticos, com o produto final do projeto, ficando o trabalho das relações em segundo plano. A preocupação se restringe à adaptação do jovem a uma realidade, mas será possível seguir esse caminho sem questionar as regras , apenas incorporando-as sem crítica?
Como o jovem pode compreender uma situação na qual esperam que ele seja inserido sem passar por um amadurecimento de valores, sem uma edificação de sua identidade enquanto pertencente a determinado grupo?
E como vivenciar tudo isso sem uma comunicação clara, horizontal, autêntica? Seria possível para um jovem fazer um projeto de futuro sem consciência de seu significado, sem que saiba como uma escolha pode ser construída? Muitas questões podem ser colocadas a fim de esclarecermos a fundamental importância do espaço grupal para o jovem com um acompanhamento profissional adequado. Temos clareza também que este é um grande desafio, não só para os jovens , mas também para os adultos que se relacionam com eles.
O psicodrama compreende que as micro-relações, os pequenos grupos, tendem a reproduzir as mesmas dificuldades e conflitos das redes sociais mais amplas: família, empresa, organizações políticas, educacionais, etc.
Os processos vinculares que acontecem nesses projetos com os jovens podem repetir formas de relações saturadas, autoritárias, pouco criativas, com distorções na comunicação, na afetividade, ou em situações extremas, desprovidas de respeito e fidelidade.
A intervenção dos psicodramatitas nestas relações grupos-organizacionais se propõe a trilhar um caminho, através de sua metodologia específica, traçando junto com todos os participantes o desenho do como, onde, quando, porque esse processo de reprodução acontece. Ao proporcionar essa identificação das tramas envolvidas, pode-se sair das polarizações de culpados e inocentes, bons e maus, bem-educados e mal-educados, competentes e incompetentes, e assim por diante. O objetivo é partir para uma construção pautada na consciência de limites , das potencialidades, dos direitos e deveres. Nesta criação conjunta do papel de cidadão, todos fazemos parte, tanto nós profissionais, quanto os jovens e seus familiares.
Ao elaborar um projeto para o jovem não se pode ter a ingenuidade ou desconhecimento de supor que a transformação da realidade social se dará apenas através do trabalho com eles. Se não há abertura e disponibilidade para um investimento no aspecto humano, se vendo como parte dessa rede, e reconhecendo as participações e contribuições dos vários fios que a compõe, o projeto pode se transformar numa simples expiação de culpas, ou o que é ainda pior, pode-se chegar à equívoca conclusão de que não há solução para esses graves problemas. Assim, em nada terá contribuído para uma realidade diferente da que estamos vivendo.
Não temos respostas certas, um gabarito exato, uma receita infalível, mas um método de trabalho social, que propõe ao profissional, antes de tudo, a se ver, lado a lado com o outro, fazendo parte do mesmo drama, buscando em conjunto as saídas, as respostas, e porque não, aprendendo a criticar, a construir, a transformar. Enfim, Sujeitos dispostos ao árduo, mas prazeroso, trabalho da co- criação.
Proponho, então, àqueles que desenvolvem esses projetos que se perguntem se estão construindo um futuro “para” os jovens, ou, novos vínculos, abrindo para todos, novas perspectivas.
Maria do Carmo Eunice Mazzotta
Psicóloga, Psicodramatista, Docente e Supervisora pela Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas – IPPGC/ Febrap