Em meu trabalho com jovens, particularmente os vestibulandos, passando por momentos de pressão e angústia oriundos de todos os lados, na dúvida da escolha certeira da carreira (pois “errar é humano” mas não é permitido, já que é perda de tempo), da iminência do futuro incerto, e do fantasma do fracasso no vestibular, costumo propor que imaginem como seria o mundo no momento em que os mesmos se encontravam ainda na barriga da mãe. A idéia é construir um breve espelho da história do jovem: ele avaliará a própria imagem.
Apesar dos risos iniciais, cada qual à sua maneira descreve um roteiro, geralmente pronto. Daqueles em que os personagens estão todos ali, com suas falas e gestos já demarcados. Parece mesmo que pouco interessa quem são os atores, pois na verdade o que vale é o cumprimento do roteiro.
Começa a descrição. O cenário é o das propagandas de cartões de crédito. O futuro quarto do bebê, por mais bisonho que pareça, é rosa ou azul. Não sei ao certo o que acontece com o branco, mas a dúvida aqui também não é bem vinda. Ainda é assim. No máximo um mundo com três cores. Daqui a diante, com a escolha prévia do sexo do rebento, minimiza-se o risco de equivocar a cor do quarto e do enxoval.
O time do coração geralmente é o do pai.O uniforme de bebê imprime o nome do futuro herdeiro nas costas, acima do famoso número dez. Teremos um torcedor fanático. E ai dele se assim não for! Não, essa possibilidade não existe.
Se for menina, o caminho de Cinderela lhe é apresentado desde as maria chiquinhas, o ballet, as Barbies. Outro dia vi numa loja um Ken, o namorado da Barbie, com aquela cara de sonho americano, de bermuda xadrez empurrando um carrinho de bebê, por sua vez igualzinho ao pai. Mas o que o Ken está fazendo no parágrafo das meninas?! E alguém já viu princesa sem príncipe encantado?
A história enfim chega aos dias atuais, ao vestibular, à futura profissão. Está tudo lá. Desde o útero? E porque não? A profissão é a mesma do pai? Ainda existem casos assim. Seja em nome da vaidade paterna, da continuidade dos negócios da família, ou ainda em função da facilidade da carteira de clientes já conquistados. “Pois a vida é agora”, e ela não está fácil.
Assistimos as cenas, intrigados com aquilo tudo, o jovem e eu.
Alguns gostam muito do que vêem e aplaudem, pedem bis. Outros ficam profundamente irritados com o texto da peça. Tornam-se platéia da própria vida. Reclamam e dizem que as cenas não são suas. Outros ainda, se sentem culpados e posicionam-se rapidamente em defesa dos pais: “mas eles fizeram isso para o meu próprio bem”, ou ainda, “eles não sabiam o que estavam fazendo”.
Como psicodramatista argumento que a idéia não é encontrar os culpados. Seria de grande valia produzirmos um bode expiatório. A tarefa, muito mais complexa, é compreender conjuntamente com o jovem como se dá sua inserção naquela trama e auxiliá-lo na construção de suas próprias alternativas, se assim desejar.
E então ele se dá conta de que não foi convidado para escrever o roteiro da própria vida. Nosso protagonista reclama ainda de outros aspectos do texto. Para ser aquilo tudo ele teria tantas outras coisas prontas pela frente, dentre elas, o vestibular. Pois para atualizar o conto de fadas e chegar ao condomínio town house da zona sul da cidade, com quatro carros na garagem e produzir mais do mesmo, só trabalhando muito e sendo o melhor dos melhores. E isso só as melhores escolas do país é que poderão oferecer-lhe.
Mas que papo mais burguês. Será? E o aluno da escola pública, assim como seus pais, desejam o quê? Outro dia, em um sociodrama para duzentos jovens da terceira série do ensino médio, todos de escolas públicas, o protagonista, um dos alunos presentes, vivia o personagem de um engenheiro com carro do ano, famoso já no início da carreira. Trabalhava em uma empresa que tinha até cerveja no frigobar. Pode? Parece mesmo que independentemente da classe social, o sonho é o mesmo, pois o produto posto à venda é exaustivamente divulgado. Logo, é desejado. Divulgo, logo existo. Sem dúvida nossas escolas de publicidade e propaganda são muito boas.
O aluno do cursinho? Ele sabe que sua escola quer muito que ele seja aprovado no vestibular. Ver sua foto no jornal e tornar-se estatística positiva. Os professores reforçam o coro. Seus colegas de sala agora são seus concorrentes.
Qual caminho seguir? O jovem tem escapatória? Que tal perguntar a ele, e convidá-lo a escrever o próprio script? Auxiliá-lo a olhar para seu próprio caminho e debruçar-se sobre ele, questionando-o. Ele poderá até confirmar a produção social, prestar o vestibular, ou ser o traidor familiar e mudar-se para uma comunidade alternativa em Pirinópolis. Quiçá ele deseje ser o diretor da peça. Quiçá encare o vestibular como parte do processo da vida, e não como produto.
Fernando Costa Cordovio
Psicólogo, Psicodramatista, Docente e Supervisor do Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas – IPPGC/ Febrap