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A sabedoria do nada fazer

Correio Popular - Campinas, setembro de 1997.

Ando sentindo falta de sentar-me num dos cafés de nossa  bonita cidade e, despretensiosamente, escolher  algum  sabor  agradável  que  me sirva de acompanhamento.

Posso ter como prato principal o fim de tarde, onde os homens iniciam o desacelerar do ritmo programado do compromisso diário. Observar é interessante. Ou, perder-me em devaneios naquele projeto, quem sabe possível, que dá razão de ser aos passos nossos. Talvez simplesmente ouvir os cheiros, mirar os sons, degustar imagens e tocar sensações. Algumas inusitadas, outras velhas conhecidas. Misturas ebrifestantes. E com certeza, uma mescla disso tudo somente conquistada através da brincadeira do nada fazer.

Poucas vezes sabemos nada fazer. Nada fazer que, com prazer, requer sabedoria maior. Aquela sabedoria que facilmente perdemos por desconsiderarmos em nós e, à nossa volta, aquela alegria infantil de olharmos com olhos de primeira vez. De cabeça para baixo, quem sabe. Com outra cor. De outro ângulo. Com perspectiva. Sem perspectiva alguma. Porque, viciadamente, olhamos para o mundo com ares de um já conhecido, decodificado, e, pior, rotulado. Rótulo que pode esconder o conteúdo. Sob a força deste vício, nos relacionamos em cenas novas com significações previamente estabelecidas.

Poderia se dizer que também um olhar necessário, este, o do prévio conhecimento. Caso contrário, teríamos que inventar a roda todos os dias. Quem sabe então um olhar sem vício, onde estamos livres para transitar pelo já sabido e inevitável e, simultaneamente, pelo novo. Pois, creio, coexistem.

Haja olhos de ver !!!

Por isso uma sabedoria indispensável à existência do nada fazer ? 
Lembra-se daquele final de férias quando você jurou ao seu corpo descansado e bronzeado, que nunca mais entraria naquela correria maluca e desenfreada, pois estava te levando a uma tensão irritante, sem sentido e desnecessária ? E daquele começo de férias que você ficou doente porque quando pode deixar de estar alerta, já arrastava algum dano que nem mesmo se permitia perceber ? Lembra ?

Poucas vezes podemos nada fazer. E quando o podemos, raramente conseguimos. Um pequeno espaço de férias durante um ano tornou-se pouco frente às exigências de produção que nos são impostas ou que nos impomos.

Para além da quantidade suficiente, no entanto, vislumbro a qualidade como uma referência maior. Podemos ter poucos espaços e tempos diários disponíveis - apesar de acreditar que sempre devemos brigar por eles - mas se forem realmente aproveitados, serão reenergizantes. Não cabem aqui receitas. Existem diferentes alternativas para diferentes necessidades. O nada fazer é uma delas…

Neste final de século, as imagens se sucedem incansavelmente. A informação é um bombardeio. A produção há muito é seriada. Fazemos um comentário freqüente de que o ano passou rapidamente. O tempo sempre foi e continua sendo o mesmo. A forma com que lidamos com ele é que mudou. Assumimos cada vez mais compromissos numa necessidade infinda de chegarmos a algum lugar, que muitas vezes nem mesmo sabemos onde. Lembro-me de um índio que certa vez olhando para o céu ao ver um avião sobre sua cabeça, comentou que o homem branco voava sempre de um lugar a outro buscando sua felicidade. O índio tem esta sabedoria. Que não é a do acúmulo de informações. Não é a da erudição. É a do discernimento dos valores que a vida proporciona e/ou induz. Quando apenas proporciona, escolhemos e somos livres. Quando somos induzidos, não nos diferenciamos de escravos envoltos numa teia de repetição robótica, a reproduzir modelos designados por alguém como corretos e únicos.

Como então, discernir para escolher e não ser induzido ?
Parece-me que o movimento para fora do senso comum é uma alternativa para se contribuir com novos olhares. Ganhamos assim algum tipo de consciência que nos permite a responsabilidade por nossa escolha.

Se colocarmos, portanto, minha afirmação - o nada fazer, com prazer, requer sabedoria maior - de cabeça para baixo, poderíamos voltar finalmente à mesa do café, despretensiosamente, e dizer que este nada fazer nos permite um olhar com menos vício, aproximando-nos de uma nova combinação de cores, do inusitado. Existe sabedoria maior ?

Pois é !!! Ando sentindo falta de nada fazer…

Luiz Contro

 
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