Amigos secretos.
Correio Popular - Campinas, dezembro de 2001
Em dias natalinos e de final de ano somos tomados pelos encontros de confraternização. Alguns, na verdade, são só mais uma razão para uma pequena festa, o que não deixa de ser um bom motivo. Outros, movidos por uma sensação de estar se fechando um ciclo, num ritual simbólico importante onde cabem avaliações, retrospectos e sementes para novos projetos. Tem aqueles que buscam uma integração, e os que acontecem simplesmente porque é de praxe. Ou ainda, e até mesmo, os que se realizam quase que por obrigação. Dá para dizer, talvez, que existem tantos tipos de reuniões nessa época quanto são os diferentes agrupamentos com suas semelhanças e singularidades contrastantes, no recorte de tempo desses dias.
Perpassando por elas, um jogo que vem se institucionalizando como sendo um dos momentos da concretização de tal ritual é o “amigo secreto”.
Não tenho notícias sobre a origem deste jogo, mas penso que ele trás elementos interessantes. O fator surpresa, baseado na descoberta de “quem tirou quem”, é o menor deles, salvo grupos de crianças, alguns adolescentes e alguns adultos. Mas, ao tentarmos perceber o que a pessoa tirada como “amigo” gosta, usa, com o que ela se parece e tantos outros sinais que nos norteiam a dar um presente, estamos exercitando nossa observação sobre ela e conhecendo aspectos que nos mobilizam, nos identificando ou não. E apropriar-se de seus diferentes aspectos, aumentando o leque, em nós, de suas características, pode nos dar ainda uma outra postura quanto às nossas dificuldades de aceitá-la, pois outras facetas, para nós mais agradáveis, podem se revelar. Caso seja o contrário, pois é sempre possível, mais elementos eu tenho para me localizar nessa relação, o que é sempre saudável.
Ao darmos elementos do “amigo” para que descubram quem é, ele vai se sentir percebido, ou, saber o que dele perceberam, ou ainda, saber pelo menos o que tem transmitido.
Enfim, são tantas as possibilidades de contato que um jogo desses possibilita, que não caberia nessas poucas linhas. Um pequeno momento onde revelamos e somos percebidos nalgumas coisas uns pelos outros.
Por isso mesmo minha decepção com o surgimento das listas de presentes num jogo como este. Pois é! Nalguns grupos tem se jogado assim. O “amigo” elabora uma lista de presentes que gostaria de ganhar, que fica à disposição de “qualquer um” que o tire. Perde-se com isso muito das possibilidades de percepção e contato acima sugeridas.
O leitor, a essas linhas, deve estar se questionando se este autor não teria nada mais significativo ou grandioso com que se preocupar. Afinal, com tanta violência nos cerceando, fome, injustiças e adjacências, num mundo tão regido pela necessidade de “ter”, não seria mais valioso abordar questões talvez mais pertinentes, para não dizer outra coisa?
Entendo, caro leitor. O caso é que acredito que as fomes, as violências, as injustiças, o poder da mídia criando necessidades de consumo e as adjacências são tantas, que elas se manifestam de muitas formas. E as formas mais sutis e cotidianas – porque incorporadas, são as mais difíceis de identificar, e por isso mesmo de com elas lidar. Neste pequeno recorte do “amigo secreto”, por exemplo, o desejo de “ter”, quando seguimos a lista de presentes previamente estipulada, fica privilegiado e é o que se busca satisfazer, em detrimento de um pequeno momento possível de aproximação das pessoas. Essa sobrevalorização do “ter”, característica de nossa sociedade atual, dita normas, comportamentos, estabelece necessidades, invade até mesmo um jogo como este.
Se buscamos uma transformação nesse estado de coisas porque acreditamos que podemos viver permeados por valores mais humanos, não podemos desmerecer esses pequenos acontecimentos, vitrines do tipo de ação que buscamos combater. Lidar com esses pormenores do cotidiano é uma maneira de interferir na força de ideologias que se colocam como verdades a serem seguidas sem se questionar.
Caso contrário, voltando ao detalhe do jogo em questão, possíveis novos amigos continuarão secretos.
Luiz Contro