Correio Popular - Campinas, abril de 1998.
Uma das características do mundo medieval foi sua rigidez na estratificação social. A classe ou profissão é que estipulava a posição social de uma pessoa. Com esse enquadramento, o indivíduo diluía-se numa massa determinada, sendo alguém do clero, da classe dos senhores, dos servos ou de pequenas intermediações possíveis.
Como toda época subseqüente, a do Renascimento Cultural e Urbano (concomitante à Expansão Comercial e à Reforma Religiosa) surge em função das contraposições existentes na etapa anterior. Aliando-se a uma retomada dos valores do Classicismo greco-romano, o reconhecimento da individualidade passa a ganhar destaque, tentando sobrepor-se ao social.
Herdamos desse período histórico (Classicismo) um culto ao mito do gênio, como conseqüência dessa valoração dos quesitos próprios e únicos do indivíduo. Tal mito, a meu ver, contribui para que muitos de nossos passos sejam carregados de peso, para que caminhos sejam crivados por barreiras muitas vezes intransponíveis na direção de uma vida criativa.
Um concreto exemplo desse culto paralisante é a expectativa descomunal que se abate sobre o jovem em fase de definição profissional. Espera-se, muitas vezes, que ele tenha clareza numa etapa onde apenas tem uma parcial (ou nenhuma) noção de por onde ir. Cultivamos, então, uma atitude de aguardar um momento de genialidade, pois com tão poucos elementos que o jovem por si dispõe, só mesmo algo vindo de um mundo outro poderia tirá-lo do impasse. A genialidade é vista, dessa maneira, como algo sobre-humano, opondo-se à idéia de um desenvolvimento progressivo, onde cabe o ritmo próprio de cada um, um tempo necessário de amadurecimento para dar forma às muitas variáveis que estão compondo essa etapa do mundo juvenil.
O apoio da informação, da possibilidade de experimentação e, principalmente, da compreensão dessa sua fase de vida, tornam-se de fundamental importância, para que a pessoa esteja em condições de ser criativa, ou seja, que tenha condições de estruturar, à sua maneira, os componentes todos ou, em sua maioria, que estão fazendo parte de seu contexto.
Identifico também a existência de tal mito em nosso dia-a-dia, principalmente em situações de aprendizado ou de criação. Nossa expectativa ao iniciar o estudo de um instrumento musical, por exemplo, é, muitas vezes, de sair tocando após a primeira aula. Frustração na certa! Lemos um texto bem escrito, envolvente e ficamos a imaginar como foi possível o autor sentar e jorrar-se em palavras que, num curto espaço de tempo, encontram a forma e o espaço perfeitos. Mágico ! Genial !
Infelizmente, ou felizmente talvez, a existência não permite veredas que encurtem caminho. O aprendizado, assim como a criação, requer um tempo, maior ou menor dependendo do ritmo de cada aprendiz. Ao criador, pede-se a experimentação de algumas formas, quando não de muitas, até que se chegue a uma ou algumas que traduzam uma emoção, uma idéia, ao preço de frustrações, angústias e deslumbramento.
Essa constatação, ao invés de constituir-se em empecilho, pode humanizar os processos de criação e aprendizado aos quais estou me referindo, tornando-os possíveis a todos ao não reduzir seu acesso a uns poucos eleitos e diferenciados. Aproxima-se, tal constatação, da concepção que considera os estímulos e as condições do meio externo, associados às aptidões individuais, como variáveis inerentes e imprescindíveis aos processos em questão. Todos os considerados “gênios” da humanidade - embora muitos em idade tenra já produzissem obras significativas - tiveram posteriormente um aumento qualitativo de suas produções. Ou seja, quanto maior a experimentação, o estímulo, o nível de informações, maior a possibilidade de configuração de formas e conteúdos. Logicamente, posso estudar música a vida toda e não conseguir elaborar peças que Mozart compôs aos dezesseis anos. Minhas aptidões, meus estímulos e condições econômicas, sociais - incluindo aqui lugar e tempo histórico onde nasci e vivi (ou vivo) – me levaram a desenvolver outras potencialidades, não necessariamente explorando-as ao máximo como ele explorou sua musicalidade. Picasso, influenciado (como todos nós, gênios e mortais) por seus predecessores e contemporâneos, contribuiu para revolucionar a pintura, mas era figura difícil de se conviver face ao seu egocentrismo ditatorial.
Diferentemente da expectativa sobre e des-humana de uma genialidade, a criatividade pode constituir-se não só como processo, mas como atitude cotidiana. Não se restringindo a uma produção de obras artísticas ou projetos e atividades específicas, ganha espaço no fazer natural do trabalho, no lazer, no relacionamento. Íntima da espontaneidade, da sensibilidade e da imaginação, a criatividade proporciona um estado de espírito que busca novos caminhos, inusitados ângulos.
Numa sociedade massificada, globalizada e, ao mesmo tempo, totalmente segmentada, onde as transformações se dão num ritmo alucinante, tal estado torna-se um desafio a ser atingido, por não encontrar condições favoráveis ao seu desenvolvimento e manutenção. Simultaneamente, é instrumento imprescindível para alterar esta mesma sociedade, viabilizando opções mais dignas e humanas. Como um sistema quase sempre evita a criação de algo que o transforme, nosso desafio torna-se maior.
A expectativa de genialidade embota, intimida. Delega ao outro, distante, inatingível, a resposta, a saída, o poder. O estado de espírito criativo amplia a visão das formas, dos fatos e, consequentemente, do mundo. Traz para mais perto de si o, muitas vezes dito, impossível. Ganha o homem em noção de coletividade. É muito do que nos falta.
Luiz Contro