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Individualismo e sexualidade

Correio Popular - Campinas, abril de 1999.

Na década de 60 vivemos o início de um movimento de liberação sexual que veio a mudar sensivelmente muitas de nossas atitudes e posturas frente a essa questão. Muito já se passou, permitindo então que tenhamos um distanciamento necessário para olhares um pouco mais críticos. Aliás, olhares é que não faltam, pois a sexualidade é sempre um tema em evidência. O fato de não sabermos muito bem como lidar com ela pode ser um componente que facilite para que esteja sempre na vitrine, fato este, por sua vez, que a indústria da propaganda sabe aproveitar muito bem.

De um movimento necessário contra uma repressão moralista que simplificava o tema (e simplifica, pois tal postura não deixou de existir), colocando-o entre os parâmetros do certo e do errado, do bem e o mal, me parece que incorporamos um movimento outro, em função de que toda transformação ou ciclo surgem em contraposição às contradições do ciclo anterior, mas, nesse caso, também como uma decorrência deturpada desta liberalização.

Se antes a ênfase era num coletivo opressor, agora a ênfase fica num “individualismo libertário”. A sexualidade passou a ser uma questão exclusiva da individualidade, ou, melhor dizendo, do individualismo. Se décadas atrás a pressão social, bem representada no discurso sobre o pecado, pronunciado principalmente pelas igrejas e segmentos sociais afins, era muito forte e fazia pairar sobre o indivíduo uma força coletiva dominante, vislumbro hoje representações desse outro oposto movimento, onde o indivíduo se sobrepõe ao coletivo, numa postura de cisão entre um e outro, postura essa, a meu ver, inviável e preocupante.

Inviável por compreender que indivíduo e coletividade, embora possuindo suas específicas características, estão em constante e intrincada relação. Preocupante porque toda vez que o pêndulo fica a se posicionar por muito tempo nas proximidades de um dos pólos da relação, o desequilíbrio torna-se eminente. 

Tal pêndulo viciado na individualidade é uma característica dos tempos atuais. Não escapando dela e simultaneamente contribuindo para a sua existência, está a forma com que estamos muitas vezes vivendo nossa sexualidade. A força de atração para o vício desse pêndulo, nesse caso, é composta por alguns elementos, tais como narcisismo e egocentrismo.

Estimulados, entre outros fatores, por uma sociedade de consumo que reza a obtenção do sucesso via a construção de uma determinada imagem, esses elementos, pela força que ganham, ofuscam nossa visão. Sob visão anuviada, nosso horizonte resume-se, limita-se, ocasionando inevitáveis desencontros. A individualidade, necessária que é, torna-se individualismo.

Amparada em elementos desse porte, a sexualidade passou a ser um mero instrumento do conhecimento de si mesmo, afastando o contato físico de qualquer comprometimento, seja pessoal ou social. Ele fica, desse modo, com a função de medir ou atualizar o poder de sedução do indivíduo. O contato com o outro somente a meu serviço.

É perfeitamente compreensível essa postura em adolescentes ou mesmo em adultos onde essa escolha como forma de se relacionar seja, de alguma maneira, consentida entre os parceiros. No entanto, a perpetuação ou a única forma sendo esta (e é muito assim que estamos vivendo), deixa a experiência humana muito aquém das suas ricas e extensas possibilidades de troca. De uma energia potencialmente transformadora que é, desde que bem canalizada, a sexualidade encontra-se empobrecida em nossa sociedade quando reduzida a uma simples satisfação genital a serviço do narcisismo, este por sua vez alimentado por essa mesma competitiva sociedade. Um empobrecimento que se torna facilmente perceptível em cinco minutos de tv ligada: cinco minutos para assistirmos a uma banalização sem conta e ao seu forte uso rumo ao mercado consumista.

Data do começo desse século a concepção de que a sexualidade abrange um campo significativo dentro das relações humanas. Do impacto causado por essas primeiras idéias, gerando uma forte reação contrária, passando pela revolução sexual e chegando até os dias de hoje, muito já foi escrito e discutido por vários estudiosos e autores diversos, levando-nos à falsa idéia de que atingimos um ponto satisfatório de compreensão e principalmente de uma vivência, que pouco se tem por acrescentar. Um ponto satisfatório permanente, na verdade, nunca será atingido, pois como as relações e a sociedade onde se dão são dinâmicas, a sexualidade também adquire formas e conteúdos que merecem ser compreendidos dentro desse dinamismo da interconexão. Portanto, novas reflexões acerca desse novo momento são indispensáveis.

Posso começar, pensando que a carga excessiva no “cada um prá si” dessa nossa sociedade contemporânea continua aprontando das suas.

Luiz Contro

 

 
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