Correio Popular - Campinas, março de 1999.
As concepções do que seja “loucura” são muitas. “Loucura”, quando colocada aqui entre aspas, é justamente para sugerir o questionamento sobre um dos seus mais arraigados e perniciosos significados.
O termo, historicamente, carrega o seu antônimo, que seria sanidade. Pólos opostos: sanidade e loucura. Essa é uma perspectiva. Colocando também “sanidade” entre aspas, me posiciono refutando esse pólo na sua idéia sem pertinência de que existe uma total assepsia no humano, deixando, por isso mesmo, de ser humano. Não somos sempre potentes, não somos perfeitos. A sanidade sem aspas, portanto, não existe, valendo o mesmo para o seu equivalente oposto, pois todos temos nossas fragilidades, irracionalidades, descontroles e que tais, o que em muitas situações são movimentos positivos, respostas necessárias. Essa é uma outra visão, da qual compartilho.
Tal posicionamento pode nos remeter a algumas considerações. Vivemos numa época, sem precedentes, de inversão de valores, ou, de total falta de noção de para onde estamos indo. Viajamos por planetas outros e não damos conta de erradicar a fome no nosso. Especializamos-nos “na parte superior do peito esquerdo” e muitos ainda morrem de esquistossomose. Autores, como o teatrólogo Plínio Marcos, que acerca de trinta anos atrás já denunciava esse estado de coisas, estão sendo reconhecidos pela atualidade de suas obras. Infelizmente, estão se tornando clássicos. Tal situação social é muito complexa, envolvendo um número enorme de variáveis interdependentes, o que não nos impossibilita de abraçarmos uma, para lançar alguma luz nessa pequena tentativa de compreensão do tema proposto. E ela, a variável em questão, sem dúvida alguma tem força inestimável, embora já também clássica: a substituição do “ser” pelo “ter”.
De uma sociedade mais comunitária onde a capacidade de cooperação era o que dava reconhecimento aos indivíduos, chegamos à outra onde o maior número de posses materiais é que faz com que tenhamos o apreço geral. Frente a tal estado de coisas, a competição é uma decorrência inevitável. Num meio extremamente competitivo não há lugar para a fragilidade e, por isso mesmo, o indivíduo que sofre, seja por um desequilíbrio orgânico e/ou por descompassos gerados por esse mesmo contexto onde está inserido, necessita ser afastado. Criamos então os manicômios, um depósito para essas pessoas, os nossos loucos sem aspas, que não mais nos servem porque não mais produzem.
Não precisamos voltar no tempo para reconhecer um ambiente mais comunitário. Basta adentrarmos pelos interiores desse nosso tão desigual país, onde, em muitas das pequenas cidades, o “ser alguém reconhecido por todos” ainda passa por características como ser solidário. Identificaremos então uma outra relação com o sujeito em sofrimento. Lá, a comunidade de alguma forma o mantém integrado a ela, gerando os personagens folclóricos que todos conhecem, protegendo-os, estabelecendo limites quando preciso ou mesmo internando provisoriamente, mas não o abandonando, não o deixando à margem dos vínculos imprescindíveis para a construção do seu sentido de pertencer, o que lhe confere uma identidade e a aceitação enquanto ser. Não alimentam a loucura sem aspas por manter a seu modo essa integração.
As diversas sociedades podem, assim, lidar de maneiras diferentes com essa questão. Estimulando um rótulo - que é quase sempre definitivo - pela segregação de quem não mais produz, ou reacomodando-se em sua rede de relações para que, num novo posicionamento, encontre um espaço para este que continua a ser seu membro.
Por certo, há que se rever nossos rumos, priorizando nossas reais necessidades, ao mesmo tempo em que se faz urgente uma reavaliação em nossos atuais constituídos valores. Uma revolução desse porte, estrutural, nos levaria a fecharmos nossas máquinas de produção de loucos, sem aspas. Como toda mudança deste porte demora tempo, e este “não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém”, principalmente para aqueles muito sensibilizados, transformações mais imediatas se mostram urgentes.
É o que tem acontecido bem perto de nós, campineiros, em Sousas, há alguns anos, no Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira. A começar pela alteração do nome (de hospital psiquiátrico para serviço de saúde), que não se trata de uma simples troca semântica, mas de uma mudança de postura frente aos discriminados por nosso meio, até alterações mais ousadas como a criação de “lares abrigados”, que também se alteraram para “moradias”, onde os moradores (aqueles, os abandonados pela família gerada pelo contexto competitivo) constituem um novo grupo de referência.
Mudanças assim efetivas comprovam ser possível colocarmos aspas na loucura.
Luiz Contro