Correio Popular - Campinas, setembro de 1997
Deparamo-nos há longo tempo com situações e acontecimentos onde a intransigência e rigidez constituem marcos referenciais, valorando condutas e decisões. No trânsito, com os filhos, nos negócios, na política restrita aos gabinetes, no discurso, enfim, em todos os níveis do cotidiano onde está presente o relacionamento humano.
Filhos que herdamos uma cultura patriarcal, somos ainda regidos pelo autoritarismo que consegue manter-se na ilusão de que a força de quem oprime e o medo de quem é oprimido são os instrumentos apropriados ao respeito necessário e ao bem estar.
De quem ? Há quase meio século, algumas mulheres têm reagido frente à esta visão dicotomizada e por isso mesmo restrita, de mundo. Estas mulheres, não são aquelas de Atenas, pois conseguem ver o mundo além mar, num olhar de foco aberto permitido pela intuição, pelo materno.
Da mesma forma a mãe natureza, símbolo feminino por ser capaz de também gerar, guardando em seu ventre as sementes que nos mantém vivos. Reage às investidas insensíveis do homem, que sob a visão cega do lucro fácil em nome de um pretenso desenvolvimento, não planeja, não dá vistas a caminhos alternativos que levariam em consideração aspectos outros, integrantes e conseqüentes às investidas a que ele se propõe.
Assim, ao se ocupar desordenadamente as margens do rio, ou usando-o como depósito de lixo, ele reage, provocando inundações e dando-nos uma água intragável. Desmatando sem controle a terra, ela reage mostrando-nos alguns desertos ou descaracterizando as estações.
E, pelo fato de encontrarmos-nos assim a longo tempo, dicotomizados em masculino e feminino, em fraco e forte, em emoção e razão, intuição e lógica, errado e certo, explorador e explorado, homem e natureza, colonizador e colonizado, deparamo-nos com uma crise generalizada onde as instituições não mais respondem aos nossos anseios, os sistemas políticos e econômicos buscam novos caminhos e o relacionamento humano novas formas.
O termo crise na língua chinesa, entretanto, é composto : “wey-ji”, significando respectivamente “perigo” e “oportunidade”. Portanto, estamos num momento de oportunidade singular onde a possibilidade de novos caminhos e formas proporcionada por esta mesma crise, evidencia a necessidade de sermos criativos, ao buscarmos tais formas outras. E o movimento para além das formas estabelecidas pode ser designado por trans-formação. A crise então nos desafia a criatividade para a transformação.
"Não temos todo o tempo do mundo”. Nossa nave se desregula caso não tenha manutenção constante e planejada. Pode faltar água se não cuidarmos de nossas provisões.
A atitude de espera de que “alguém fará por nós” é também fruto de uma cultura de hierarquia estagnada, propositalmente mantida e alimentada por homens obcecados pelo poder como um fim em si mesmo. O então presidente Collor de Mello pilotando um jato ou fazendo suas corridas não sem antes anunciar a toda a imprensa que o faria, é um exemplo típico em nossa história recente de tentativa de manipulação das massas, onde a criação da imagem de super homem que tem o saco roxo, pretendia induzir a contrapartida da atitude de espera estagnada onde “alguém mais forte fará por nós”.
Não só não fez como desfizemos toda aquela farsa pintando a cara e indo às ruas. Fizemos por nós. Se o já conhecido foi e é muitas vezes autoritário, rígido e intransigente, porque não darmos chance ao flexível, ao compartilhado, ao feminino?
Se a dicotomia é uma cisão desconstrutiva, de visão limitada, talvez possamos buscar o caminho da convivência harmônica do masculino e do feminino dentro do mesmo ser humano, nas relações, ao assumirmos o poder não como um fim em si, mas para darmos um rumo a esta nave que precisa saber para onde vai. Novas formas, pois – parafraseando o poeta – um dia, vivemos a ilusão de que ser homem nos bastaria.
Luiz Contro