Correio Popular - Campinas, abril de 2001.
O evento proposto pela prefeita Marta Suplicy e realizado por setecentos psicodramatistas em cento e cinqüenta pontos da capital, contando com a participação de cerca de oito mil pessoas, tendo como tema a ética e a cidadania, provocou as reações mais diversas em vários segmentos da sociedade. Em alguns meios de comunicação, por exemplo, estamparam-se manchetes do tipo “Marta propõe psicoterapia de grupo para a cidade”. Apesar de reiteradas vezes, tanto a prefeita quanto os organizadores e os participantes vinculados à direção das atividades, tentarem localizar melhor os objetivos do evento, houve e há uma repetição em distorcê-lo, colocando-o como um megaevento a serviço de um factóide político, “típico de uma prefeita psicóloga”.
Por ter participado juntamente com esses psicodramatistas provenientes da Capital, de Campinas, de outras cidades e de estados que não São Paulo, voluntariamente e sem cores partidárias ou políticas, sinto-me na obrigação de expressar-me mais uma vez, fazendo-o, não oficialmente, em nome todos que se mobilizaram e executaram um empreendimento de tamanho significado, poderia até mesmo dizer histórico, apesar das notícias em contrário.
O psicodrama, como método que proporciona a criação coletiva, é uma ferramenta útil e interessante para quem se propõe, não somente em épocas de discurso eleitoral, a efetivar a participação popular na busca de alternativas frente aos problemas que essa mesma população enfrenta. Nós sabemos de nossas dores, fruto do descaso do poder público que se isola nos gabinetes. Através da representação e da vivência de cenas cotidianas, as pessoas que participam de um trabalho guiado por essa proposta se vêem uns aos outros nas mesmas dificuldades comuns, resgatando então o vigor da sensação de não estar só. Sentem-se fazendo parte de um grupo, o que restitui o senso de identidade. As alternativas, muitas vezes já presentes ou mais claras para alguns participantes do grupo, se explicitam através deste processo que oferece as formas para que os conteúdos se manifestem.
A prefeita, também pelo fato de ser psicóloga, sabe do poder de alcance desse instrumento, pois já o utilizou em projetos de educação sexual. No evento em questão, o tema proposto para ser explorado com a população foi o da ética. E não por acaso. Nossas instituições governamentais e espaços públicos, locais onde a atividade se deu, não são somente prédios de frias paredes ou lugares vazios. Fazem-se, infelizmente, de relações permeadas por abuso de poder, jogos de toma lá dá cá e pela ausência de princípios os mais elementares a regerem condutas, por exemplo, como a de sujar nossas praças. Qualquer tentativa de mudança neste quadro, portanto, que não passar por questionamentos, não levantar alternativas frente a essas dinâmicas viciadas de relação, está fadada a ser mais um programa sem eco, sem ressonância, ou, servindo apenas àqueles poucos urubus que engordam nutrindo-se da miséria alheia. É por essa via que circula uma proposta como esta do psicodrama da ética: dar voz aos envolvidos para que eles apontem suas próprias alternativas.
Historicamente estamos acostumados a uma prática em que são feitas promessas que não se concretizam e, por isso, nos tornamos descrentes de caminhos que apontem algo novo. Nesse sentido, entendo as resistências expressas, por exemplo, por alguns meios de comunicação. Essa foi uma manifestação presente em muitos dos grupos dirigidos, principalmente no início da atividade, incluindo a minha e de minhas duas parceiras. Num primeiro momento, os participantes demonstravam estar sem entender o que iria acontecer e, por isso mesmo, estavam um pouco descrentes, desanimados e intimidados. No decorrer, vivenciando as proposições oferecidas, por meio de personagens e cenas que representavam suas próprias vidas e que faziam referencias à ética, o envolvimento e comprometimento para com a atividade e o tema foram se intensificando, a ponto de, no final, depois de terminado o psicodrama, eles ficarem um bom tempo conversando entre si, trocando endereços por estarem interessados em alternativas que foram aparecendo, como, por exemplo, a questão da reciclagem do lixo naquele bairro, ou de como a biblioteca poderia melhor utilizar seu espaço em prol da comunidade. Pessoas que no início do trabalho nem sequer se conheciam.
Acho que se nos detivermos nessas cenas acontecidas, talvez possamos, no mínimo, dar um voto de crédito a uma proposta que, de modo ousado, inova ao mirar por uma outra perspectiva, a das relações e valores éticos, alguns de nossos principais problemas.
Trata-se de um processo desencadeado e que a continuidade do mesmo terá como norte os dados levantados junto à própria população. Uma das sugestões, feita pelos participantes, foi de a que esse tipo de atividade se intensificasse, abrangendo mais grupos da comunidade.
Sabemos não ser a cura para todos os males. Mas negar-se a ouvir ou distorcer essas vozes vivas é participar de mais uma repetição que só interessa aos urubus.
Luiz Contro