Correio Popular - Campinas, setembro de 1999.
Sair no meio da sessão de um filme no cinema, bocejar ou fazer comentários aos montes durante a exibição e se levantar imediatamente, assim que ela termina, são sinais evidentes de desagrado. Foi o que presenciei, para minha surpresa, ao assistir o último de Stanley Kubrick, “De olhos bem fechados”.
E a surpresa me deixou atento aos relatos daqueles expectadores: “Esse filme não tem nada…”, “Disseram que haveria uma cena picante entre ela e ele mas eu não vi…”, “Que filme sem graça !” e outros…
O desagrado manifesto me fez crer que essa platéia veio num filme que achava que seria, mas não foi. E seria um produto americano, hollywoodiano, de muita ação e suspense, fast food para um sábado à noite. E foi denso, exigindo degustação lenta, mas, residindo neste tempo envolvido, o contato com o sabor. Cá entre nós, não gosto de comer rapidamente qualquer coisa.
A questão da arte como puro entretenimento ou como possibilidade de reflexão e questionamento aos dogmas a nossa volta (e aqui não há a necessidade de nenhuma sisudez na forma como pode se apresentar), mais uma vez nesse episódio se coloca. Podemos considerar, democraticamente, que é de bom alvitre existir espaço para as duas possibilidades, inclusive para que possamos escolher frente às nossas diferentes e momentâneas necessidades. O que é preocupante é a predominância esmagadora da primeira.
Um sinal de tal predomínio é que, um filme como esse - e muitos outros considerados pejorativamente como “cabeça” pelos adeptos do cinema fast food - não é sucesso de bilheteria, aqui e em qualquer outra parte do mundo. Os poucos cinemas que se dedicam a reproduções desse tipo são de capacidade infinitamente menor, não por acaso. O dinheiro envolvido numa produção de cinema, que é cara, só é investido se quem financia tem certas garantias de um retorno considerável. E um retorno considerável só se faz possível se o produto for consumido por uma massa também considerável. Como a grande massa nunca foi estimulada a pensar (pela educação sem qualidade e regime autoritário entre outros), ela tem preferência por esse tipo de consumo. Produz-se então para ela e, muito mais: estimula-se que seja sempre uma massa a se proliferar, para que se aumente, sempre, o consumo. Se antes vivemos um totalitarismo político, vivemos hoje um totalitarismo do mercado econômico.
A referência, portanto, de uma arte “alternativa” é dada pelo movimento que resiste ao consumo massificado de fórmulas prontas, certas, rápidas, bonitinhas, mas ordinárias, parafraseando Nelson Rodrigues.
Aliás, ninguém melhor para parafrasear do que Nelson, nesse caso, por se tratar o filme de questionamentos sexuais na relação de um casal. E aqui talvez resida uma grande parcela da frustração de nossa platéia: os que foram assistir a cenas de um bacanal ou a cena íntima entre o casal maravilhoso da poderosa hollywood, até que viram alguma coisa, mas se depararam com uma busca angustiante, pelos protagonistas, de caminhos frente aos temas e conflitos inerentes a todos nós - desejo, ciúme, traição, limites entre a vida e a morte, erotismo, inconsciente, poder. Não houve, na esperada tela ampliada da novela das oito, o sexo pelo sexo.
Mais do que a frustração, nossa platéia ficou incomodada. Não é fácil se ver na tela, principalmente quando estamos ao lado de quem procuramos manter silenciados temas que o filme ressoa.
Há que se levar em conta a inconclusa edição final ocasionada pela morte do diretor, o que resultou num arrastamento desnecessário de algumas cenas. Mas, a provocação pela obra, a meu ver, foi maior.
O engano da platéia ao ter entrado no filme errado, justifica-se. O diretor era americano. Os protagonistas, eram sim, de hollywood. O cinema não era aquele que só passa “filme cabeça”. E o tema… Bem, no tema deu-se o engano. Sexo e sexualidade parecem ser a mesma coisa, mas a segunda envolve um campo muito mais amplo e complexo do que o primeiro.
Talvez a massa consumidora do entretenimento de sábado à noite não saiba ou não queira distinguir.
Luiz Contro