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Sociedade atual e formas de relação

Correio Popular - Campinas, janeiro de 1998.

A complexidade do mundo contemporâneo não se restringe unicamente à tecnologia de ponta, ao desenvolvimento avassalador e desconexo dos grandes centros urbanos, aos mercados econômicos interligados e interdependentes, para só citar alguns poucos exemplos. Fazendo parte deste mesmo sistema atual, encontramos dinamismo e variedade em valores e modelos de relacionamento humano.

Dentro dessa faceta do sistema indivisível (pois tecnologia, centros urbanos, mercados econômicos e relacionamento humano são apenas ângulos da mesma realidade sistêmica), pinço um pequeno, porém relevante, fato ocorrido nesta última década: uma possibilidade a mais introduzida neste contexto, denominada, inicialmente pelos adolescentes, por “ficar”. Verbo que traduz o momentâneo, o experimentar, o sem compromisso.

Vejo esta nova possibilidade como uma categoria a mais introduzida no repertório das relações. Uma necessidade de dar forma a um conteúdo emergente, numa época recente de pós-ditadura, onde o exercício de liberdade, aqui também nas relações, encontra campo.

O que há algumas décadas seria tomado como um desrespeito à honra, hoje brota como expressão de um alargamento da etapa de escolha de futuros parceiros, podendo agora ser feita sob um leque maior de parâmetros e vivências, em oposição à relação única, e muitas vezes “arranjada”, dos nossos antepassados. Fórmula, esta última, de resultado desastroso, conforme atestam inúmeros exemplos próximos a nós todos.

O “ficar”, portanto, dá forma, amplifica —- a meu ver, singularmente —- o repertório de escolha das relações afetivo-sexuais, contribuindo por ser uma opção a mais.

A complexidade contemporânea, porém, como sugere o próprio termo, não se esgota numa única face que a representa. Uma outra seria expressa pelos inúmeros filhos de pais separados (novamente casados ou não) os quais não podemos mais dizer serem exceções: encontram fácil identidade ao se sentirem pertencendo a grupos de alunos, filhos de pais separados, dentro da sua própria sala de aula, para citar apenas um reduzido contexto. Filhos também de mais uma opção conquistada, frente à proibição rígida de um modelo exaurido: a de que o casamento é necessariamente eterno e que, portanto, a separação, uma contravenção. Ao preço de expor seus filhos e a si próprios em angustiantes cenas, vários casais cumpriram a predeterminação de tal modelo por comodismo, conveniência, falta de coragem, dependências várias e, muitas vezes, pela falta de referências outras como as que hoje se tornaram possíveis.

Novas referências conquistadas sempre surgem em contraposição ao já conhecido e total ou parcialmente esgotado.

Nesta direção, as figuras públicas, formadoras de opinião, sempre desempenham papel significativo, contribuindo para manter ou inovar conceitos e valores. As grávidas puderam ser também bonitas e sensuais depois de Leila Diniz. A apresentadora Xuxa, habitualmente longe de ser um protótipo de inovação, assumiu no final do último ano, publicamente, a possibilidade de seu filho ser de “produção independente”, caso não dê certo seu atual relacionamento amoroso. A pequena celeuma criada em torno de tal notícia me parece interessante para que uma discussão, sobre mais essa faceta de nossos complexos modelos relacionais, seja posta sobre a mesa.

Há que se considerar, inicialmente, não se tratar de uma atitude inusitada. Muitos de nós conhece ou sabe de relato de alguma mulher que, se não somente desejou, realizou tal projeto.

É sabido que nas últimas décadas a mulher vem conquistando maior espaço e autonomia. A escolha de ter um filho de “produção independente” é um evento contemporâneo possibilitado por tais conquistas. Pressionada pelo fator biológico, que coloca um período de tempo limite para a gestação, a mulher financeiramente independente e desejosa da maternidade, que não se encontra num relacionamento onde esse projeto possa, por vários motivos, ser comum ao parceiro, ou ainda, na ausência deste, vislumbra essa opção como saída.

Chegou aos meus ouvidos (não tenho relatos escritos) de que alguns psicólogos se manifestaram contrariamente a tal escolha, por entender que a ausência do papel de pai traz conseqüências danosas ao filho. Tal posição (de se colocar contra) e a afirmação (sobre os danos causados pela ausência da figura paterna), merecem algumas considerações. A ausência de qualquer uma das figuras, paterna ou materna, é sabidamente uma lacuna na vida do indivíduo. Ela se dá, entretanto, também de corpo presente. Não basta, como pai, apenas “estar”. Mais importante é o “como” estar. A lacuna vai sendo preenchida, como nos casos similares ou próximos com os quais nos deparamos, em parte pela própria mãe, em parte pelo novo parceiro desta, por um irmão mais velho, pelo tio, professor, amigos, enfim, pelas possibilidades outras que a vida oferece e o indivíduo, criativamente, num processo que lhe propicia crescimento, tem a chance de empreender. Não sem percalços, como em tudo.

A mãe que efetivamente escolhe como projeto um filho em “produção independente” já está muito mais presente do que os sem número de casais que têm filhos como uma conseqüência natural do casamento, muitas vezes sem se perguntar se realmente o desejam. Neles, creio que a possibilidade de ausência na relação com este filho se faz maior, embora sejam mais bem aceitos pela comunidade, por estar de acordo com normas sociais e religiosas que ainda preponderam mais fortemente em nosso meio.

A afirmação (caso nestes termos tenha sido colocada e, se não o foi, com certeza, alguém o poderia fazer) de uma inevitável conseqüência danosa numa “produção independente”, portanto, deve ser revista.  A posição de alguns psicólogos de se colocar contra já seria, por isso mesmo, questionada.

No entanto, um outro fator neste posicionamento, a meu ver ainda mais significativo, merece atenção. Uma teoria qualquer, e aqui se incluem as psicológicas, é uma tentativa de leitura, de compreensão da realidade. Nunca é a própria realidade.  Assim sendo, a tentativa de encaixar esta realidade, modelando-a (como se fosse possível!!!) para que caiba dentro de uma teoria previamente estabelecida (e, neste caso, em teorias muitas vezes oriundas do início do século, em culturas totalmente diferentes da nossa) é uma atitude, no mínimo, desaconselhável e pretensiosa, de um saber fechado para os acontecimentos à sua volta . Não somos (aqueles que se cercam da Psicologia) os únicos agentes desses acontecimentos.  As várias áreas e teorias outras formam, junto ao saber psicológico, uma complexa rede de interações em que a força resultante se dá ora aqui, ora acolá. A pretensão é desconsiderar que a escolha de Xuxa é mais uma manifestação de mulheres as quais hoje se dão o direito de escolher. Podemos dizer que Xuxa protagonizou um instante de muitas mulheres, no sentido de tê-las representado.

Considero que Xuxa, em seu papel de figura pública, sendo modelo para crianças em tenra idade, que não tem ainda alguns discernimentos, deveria ser mais cuidadosa. Anunciar publicamente, via TV, num programa de domingo, onde muitos dos telespectadores são estas mesmas crianças, foi uma infelicidade de falar via este papel que representa e que, se lhe traz muitos benefícios, requer também bom senso e responsabilidade.

Para além desta ressalva, sua manifestação explicita uma possibilidade de espaço de relacionamento que está sendo conquistado, neste caso, pelas mulheres.

Que em vosso ventre, seja feita a vossa vontade!!

Luiz Contro

 
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