Correio Popular - Campinas, março de 1998.
Espantam-me as cores vivas que pulsam em alguns indivíduos de idade avançada, em contraposição às pálidas que tomam conta de uma parcela da população juvenil. Identifico corpos marcados que levam um brilho no olhar, diferentemente de esbeltos corpos que carregam vivacidade nenhuma.
Poderíamos justificar tratar-se de uma contingência inevitável, face aos desígnios da natureza: quanto mais tempo de vida se tem, maior a possibilidade de aprender a degustar seus sabores e, como talvez tudo tenha um preço, o envelhecimento do corpo é fato, até o presente momento, irrevogável. Assim sendo, o jovem, com menor tempo vivido, não teria este aprimoramento do paladar.
Que dizer, no entanto, dos jovens e velhos que não se encaixam nesta justificativa? Jovens com projetos e real envolvimento numa ou mais atividade ou sonho. Velhos de olhar opaco, desnudos de pulsação. Sabemos que existem e que, portanto, tornam relativa a inevitável contingência dos desígnios da natureza, ou, o envelhecimento biológico, como a única variável determinante da capacidade do indivíduo de estar motivado frente à vida, pela possibilidade de melhor degustá-la. Envelhecer fisicamente sendo aposentado pelo INSS ou envelhecer em condição econômica segura, sem dúvida alguma faz muita diferença e constitui-se numa variável de peso. O jovem, aqui, teria motivos a mais para encontrar-se mais vivo, pois tem ainda perspectivas de transformações a fazer. O tempo, neste caso, é seu aliado.
Constato então que, independente de ser velho ou jovem, em condições normais de temperatura e pressão, o homem pode se relacionar com o mundo através de diferentes posturas, umas facilitando e outras dificultando seu bem viver.
Meu espanto inicial se deu por associar velhice à falta de vitalidade e jovialidade à exuberância de vida. Tal associação não é de minha exclusividade. Encontra-se explícita ou pulverizada em nosso meio cultural. Aqueles que conseguem romper com esta idéia disseminada, nos surpreendem. Pablo Picasso, apesar da conturbada vida pessoal, soube, neste aspecto e, em sua arte, nos surpreender. Iniciou aulas de dança ao redor dos oitenta anos. O exemplo vale, não pela vitalidade física, mas pelo desejo sempre renovado em aprender, descobrir. Postura facilitadora de vitalidade.
Uma outra, que não diferencia problema de desafio, desvitaliza. Ela tem olhos que filtram, retendo das situações os empecilhos, o peso, a dificuldade. Diferenciar entre um e outro não implica adotar uma postura por sua vez ingênua e superficial, que prega – cobrando caro por isso em palestras milagrosas e livros de auto ajuda – um filtro ao reverso, ou seja, reter somente a possibilidade de conquista, de vitória. Pensamento positivo indicado pelo sistema capitalista a executivos que buscam sucesso a qualquer custo! Ou, por seitas milagrosas que prometem o reino dos céus. Diferenciar desafio de problema pode ser indicado para se obter motivação para superar limites, abrir caminhos, configurar em formas diferentes das até então experimentadas. Efeito colateral: criatividade. Um desafio, via esta postura, transforma-se em problema quando todas as alternativas ao nosso alcance já se esgotaram. Enquanto desafio, um saldo de movimento, de busca, de crescimento, mesmo que depois cheguemos a um problema.
Outra é a que se fecha para situações novas. Carrega em seu bojo a falsa noção de que tudo já é conhecido. Cada fato, pessoa ou emoção, tem endereço certo dentro de um quadro previamente montado onde a classificação muitas vezes nos foi dada e a seguimos acriticamente. Outras vezes, as montamos nós mesmos, sobre referências que um dia funcionaram. Efeito colateral: sisudez.
E tem aquela que… . Infinitas são as possibilidades. Nenhuma delas definitiva, única ou politicamente mais correta. Não se deve tomar este tipo de medicação sem antes consultar seu próprio bom senso e o dos seus.
O brilho nalguns olhos, no entanto, é fato mais que consumado. É necessidade que se faz possível de suprir.
Num país onde se luta com leões diários - e não só com aquele anual - há que se experimentar muitas posturas para que incômodos de apático envelhecimento não se instalem. Saúde!!
Luiz Contro