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O Psicodrama Nestes Novos Tempos

Relato de debate realizado no IPPGC em 28/03/2009

COORDENADORES: Moysés Aguiar e kaká Mazzotta
PARTICIPANTES: Cida Davoli, Patrícia Izique (debatedoras convidadas); Luis Mondino, Inês Montenegro, Teka Minuzzo, Márcia Libertini, Ligia  Ghirello, Adoniran Possan (ex-alunos), Ester Esteves (professora).

Motivação dos organizadores: acompanhando as mudanças pelas quais o IPPGC tem passado no últimos anos, especialmente no que se refere à sua inserção nos meios acadêmicos, detectamos a necessidade de nos comunicarmos tanto com  psicodramatistas  do IPPGC como  de outras  instituições, a fim de iniciarmos  uma discussão sobre os espaços de intervenção do psicodrama na atualidade. Como coordenadores do curso de especialização de didática e supervisão psiocdramáticas nos preocupamos especialmente com os questionamentos a respeito do papel do professor nesse contexto, levantando questões e buscando um clareamento a respeito de sua posição e formação. Propusemos então os seguintes temas como disparadores do debate: o novo perfil da clientela, nichos alternativos, inserção na universidade, instrumento de pesquisa, certificação acadêmica oficial, formação para formadores.

O Debate ocorreu em 3 etapas. Na primeira parte conversamos sobre o significado do encontro, nos situamos como grupo e destacamos vários aspectos do mundo contemporâneo, questionando o lugar do psicodrama. Na segunda, criamos algumas cenas de diálogo entre os participantes, nas quais eles se encontravam após o debate e comentavam a respeito dele. Na última, nos voltamos para uma tentativa de ampliar a percepção do grupo a respeito de nosso  papel como psicodramatistas diante da complexidade da sociedade contemporânea. Enfocamos o  psicodrama, suas  idiossincrasias e finalmente olhamos para nosso próprio processo grupal no encontro.

1º Ato

O tempo foi o principal foco temático inicial da discussão. Algumas pessoas expressaram estar passando por um novo momento de vida pessoal e profissional. Citaram a procura por novos caminhos profissionais, a retomada de algo que esteve em pausa, as novas atividades em função de aposentadoria,  o desejo de reaproximação com o psicodrama.

Outro aspecto significativo apontado pelo grupo foi a novidade da proposta de nos encontrarmos num sábado para conversarmos. A busca por lugares privados, que possibilitem  trocas intelectuais e afetivas, como nos velhos tempos, nos antigos cafés, foi uma necessidade comum das pessoas presentes. Defenderam o espaço para o encontro, como esse fórum proposto, com abertura para diálogos diferentes.  Foram valorizados os espaços semi-formais, em que os aspectos individuais e grupais convivam, expressando aquilo que temos de igual, como pertencimento e aquilo que nos diferencia, sem deixar de fazer parte, mas enriquecendo o grupo em suas pluralidades.

Colocamos em pauta também a questão da internet, questionando como o psicodrama pode se inserir de formas mais efetiva; como o psicodrama, que foi criado no século passado, fica nesse momento de mudanças instantâneas. Serão novos tempos para o psicodrama? O que se faz?

Passamos a comentar alguns aspectos específicos de nossas práticas profissionais. Uma das colocações foi que o fato de trabalhar com adolescentes nos coloca numa posição de sermos  questionados constantemente pelos novos tempos, pelas mudanças. Outra se referiu à educação, questionando se vamos conseguir acompanhar a velocidade das mudanças. O constante diálogo entre o novo e o antigo, um sendo contraponto para o outro; o velho pode ser novo para os jovens. O antigo pode ser reinventado.
E a terapia?  Ao mesmo tempo que propõe mudanças pode ser um espaço de resistência contra a velocidade. E o psicodrama? Qual seria sua possibilidade revolucionária hoje?O que a pressão de mudança produz na minha escolha hoje? Qual a função das resistências no ato de transformar? Uma referência seria o que pulsa e o que não pulsa na vida.

Um outro questionamento que o grupo propôs, ainda localizado no tema práticas profissionais foi: “Estamos criando pessoas velozes para que?” Os desencontros, isolamentos, os falsos encontros, o apelo ao consumo, o poder da mídia... Percebemos que os espaços urbanos estão se transformando  em lugares de “não encontro” Tudo o que é público passa a ser bem de consumo. E o psicodrama? Qual é a nossa potencia?

Muitas interrogações foram sendo propostas nos levando a outras, que indicavam ao mesmo tempo, uma reflexão sendo construída.Encerramos este 1º ato de Debate focalizando como o psicodrama se situa na sociedade de consumo e como também faz parte dessa dinâmica social, sendo ele mesmo um “bem de consumo”.  Relembramos Marx,  comentamos que tudo se transforma em mercadoria, inclusive as relações e como a própria vida se confunde com o mercado, às vezes fica difícil diferenciar trabalho e consumo. Que capitalismo é esse que transforma tudo em mercadoria, inclusive o psicodrama? Ao mesmo tempo em que fazemos parte, podemos ter uma medida, uma crítica. Não sobrevivemos se não fizermos parte dele, mas é possível estar com um pé do lado de lá e outro do lado de cá, sem sermos totalmente consumidos pelo consumo?

O psicodrama precisa de maior abertura,  articular-se a outros pensamentos, exercitar a alteridade. As concepções do que é êmico ( de dentro ) e do que é  ético  ( de fora) em movimento reflexivo contínuo.  Rever o que deve ser desconstruído, o que muda, o que não muda. Um contínuo processo de construção. 
Como ressonância desta reflexão os participantes  concordam: o IPPGC precisa se abrir, deixar de ser endógeno, mas afinal não é o que estamos propondo hoje?

 2º ATO

Os diálogos dramatizados nos deram uma idéia do que estava sendo significativo para o grupo naquele debate numa outra perspectiva , menos intelectual e abstrata, mais vivencial e concreta.
O que emergiu foi em primeiro lugar a necessidade desse encontro para conversar,  manter contato, como uma forma de resistir às velocidades, às mudanças efêmeras, à perda do espaço comum, que possibilita a preservação dos vínculos, dos encontros . Ao mesmo tempo, às vezes, os espaços estão definidos, mas as pessoas não participam.

Foram citados alguns espaços públicos que são mais heterogêneos em termos de participação e que propiciam outras formas de interlocução, com pessoas com valores diferenciados e que tem coragem de assumirem publicamente as diferenças . Este fato foi objeto de admiração do grupo.
Outra ressonância da existência deste espaço de debate foi detectar que as pessoas que conhecem pouco o psicodrama , quando ouvem falar a respeito dele sentem curiosidade, porém o acesso para conhecer é limitado.

No início do debate parecia não estar claro o objetivo da atividade, mas naquele momento se explicitou que o desejo daquele grupo, naquele tempo/espaço definido era pensar sobre o destino do psicodrama  articulado ao destino da humanidade. Nesse sentido ficou claro para o grupo a necessidade de refletir  a respeito do “para que” se faz psicodrama,  propondo-se caminhar  além  do “como” ele é feito. 

3º ATO

Nesta última etapa nos situamos como seres humanos inseridos num sistema social caracterizado como capitalista, que nos enraíza em sua complexidade.Compreendemos que fazemos parte deste sistema e que a aceitação de suas regras de funcionamento é um fato para nossa sobrevivência. Se não respeitamos as suas regras não temos como atuar a favor nem  contra ele, ficamos apenas numa postura de oposição que não leva a mudanças. Entretanto, a forma como cada indivíduo ou cada grupo vai ocupar seu espaço, a partir de que ponto de vista vai fazer isto, como vai lidar com as características de velocidade temporal, de funcionamento mercadológico, de consumo e etc, pode ser diferenciada.

A questão é,  como não ficar absolutamente  envolvido por seus mecanismos de controle, como criar brechas, lidar com suas interfaces, estabelecendo inclusive uma estrutura de comunicação diferente, que expresse outros valores e possibilidades. Como revelar   os princípios e as regras desse sistema no imaginário dos sujeitos. Uma das dificuldades centrais da sociedade de consumo não refere-se apenas a mercadoria, mas a imagem  que está associada a ela. A mercadoria não tem uma ideologia fixa, mas somos capturados pela necessidade de rótulos que carimbam os indivíduos e as situações, a fim de que o controle seja mantido. O perigo é ficarmos colonizados por determinadas imagens e não conseguirmos ver outras; da mesma forma a linguagem, que também é representação, muitas vezes não expressa outras possibilidades a não ser aquelas definidas pelo sistema.

Refletimos que o psicodrama faz parte deste sistema e sofre suas influências, porém pode construir formas de resistências. Pode ocupar um espaço de crítica, adotando uma maneira diferente de ver o mundo, de se referir a ele estando menos  determinado por ele. O psicodrama pode buscar o “pulsar” para marcar a diferença. A questão discutida era, então, o que no psicodrama seria realmente eficaz nesse processo de mudança. Como poderia  ampliar a consciência de que esse sistema é uma realidade com regras e princípios. Como identificá-los para que possamos sair do automático e passarmos a atuar de forma diferente, sem perder o fluxo da vida.

O objetivo do curso de formação de professores de psicodrama seria levar a esse diálogo, a essa visão crítica da realidade. A articulação com outras fontes de conhecimento, como a sociologia e antropologia seria fundamental.

No momento em que o psicodrama passou a ser questionado, numa tentativa de se encontrar o que seria realmente eficaz num processo de mudança, a discussão ficou um tanto fechada.
 Uma parte do grupo ( mais concentrada pelos professores) se envolveu num debate do que “produz algo novo” e o que “mantém as coisas como estão”. Outra parte ( mais representada pelos ex-alunos) ficou mais como expectadora, ouvindo e vendo suas ressonâncias, voltando-se para dentro, para o individual, para suas biografias  particulares.

O aspecto referente ao psicodrama que manteve-se em pauta foi o questionamento a respeito da real intervenção da dramatização. Quando ela está apenas a serviço da repetição, da manutenção das imagens socialmente construídas e quando ela realmente funda algo novo, considerando que este novo não é o mesmo que novidade, mas sim a recuperação ou a descoberta do pulsar do grupo. A proposta do psicodrama é abrir ou fechar os conflitos?

A partir das falas das pessoas que se mantiveram menos participantes  durante a discussão, percebemos que ali em nosso encontro, algo estava acontecendo que criou uma ruptura. Levantou-se a possibilidade de que outras cenas, de outros contextos, que não daquele grupo, que não daquele momento, estavam aparecendo. Cenas não ditas que contavam histórias anteriores, fantasmas que estavam roubando o pulsar do grupo. Uma situação propícia para uma intervenção, caso fosse o objetivo do encontro.
Esta identificação de alguma forma recuperou a vitalidade grupal, os indivíduos ao irem se colocando foram retomando o espaço construído.

Passamos para o encerramento do encontro, representado metaforicamente por uma feijoada. Em certos sentidos já a havíamos saboreado, em outros estávamos com ingredientes para produzí-la e ainda muitas possibilidades foram levantadas, como estar levando um marmitex para casa, estar consumindo aos poucos para não ter indigestão e por aí a fora ...

Nos despedimos reafirmando o valor do encontro e o desejo de uma nova feijoada... porém é preciso um tempo para ficar com vontade de novo !

Tempo e espaço para aproximações assim como  para os  distanciamentos, movimentos humanos necessários, a serem construídos, inclusive pelo psicodrama, nestes novos tempos. 

 

 
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