Se viver não é missão para amadores, (embora e inevitavelmente a condição de vivente seja condição de amador), menos ainda é ser cidadão brasileiro. Nossa realidade é tão absurda com acontecimentos cotidianos de uma intensidade tal, que frequentemente a ficção parece pobre. Nessa complexidade, chama muito minha atenção os comportamentos e atitudes da classe média.
O modo de vida da classe média brasileira é por demais instigante. Como profissional liberal, sinto-me muito à vontade para falar de algo que conheço e participo. Um típico sujeito pertencente à classe média olha com desdém para os pobres. Ou com compaixão. Ou ainda com muita culpa. Participa de Ongs, ajuda mensalmente as instituições. Aliás, muitas destas entidades sobrevivem graças ao auxilio de membros dessa classe e não de pobres ou de muito ricos. Mas um “verdadeiro” classe média tem horror em se imaginar, em algum tempo futuro, pobre. Sua meta é o alto, o pico da pirâmide. De antemão sabe-se que isso é, estatisticamente, impossível em uma sociedade como a nossa. A esperança, no entanto, precisa se manter.
Jovens precisam aparentar que são mais ricos que de fato, que vestem roupas mais caras do que aquelas que podem efetivamente comprar, que seus pais ganham muito mais dinheiro que os pais de seus amigos. Vivem de um excesso que, frequentemente, não podem bancar. Mas isso não seria apenas problema de âmbito familiar e nesse âmbito deveria ser tratado? Infelizmente, não é assim que a coisa se dá. Existe algo mais amplo que perpassa toda a ordem e que impõem cenas, um roteiro invisível. A classe média não existe isolada do resto da sociedade, de uma sociedade cruel, em que pobres são muito pobres e ricos, riquíssimos.
Os pais da classe média querem “se dar bem” e querem o mesmo para os seus filhos. Tiveram muitas vezes uma infância pobre, infeliz. Ou foram seus pais (os avós) que assim viveram. Dão em excesso e exigem em excesso. Quando dão muito, tiram a possibilidade dos filhos buscarem. Mas também exigem: a melhor faculdade, o melhor marido, a melhor esposa, o filho mais belo, super atletas... Um verdadeiro inferno, ao contrário do que insistem as propagandas paradisíacas de casas e apartamentos dirigidas justamente para essa classe. A quantidade de usuários de droga na classe média responde a essa impossibilidade de “dar certo” e a droga é um modo de fugir de tanta pressão. Nesse sentido, acredito muito pouco nas campanhas contra as drogas dentro da uma sociedade injusta como essa. Elas são verdadeiras válvulas de escape para algo tão insuportável. As razões pelas quais jovens se drogam são muito diversas, eu sei, mas é difícil imaginar que uma classe tão opressiva não determine fugas para seus membros.
No cotidiano da clinica estas histórias chegam, infelizmente, do pior modo, quando quase tudo já aconteceu. Um filho que cheira em cocaína o equivalente a uma casa não pode estar apenas se divertindo. Um outro que mente estar cursando uma faculdade que nunca freqüentou, talvez, por se sentir incompetente, com certeza não deve ser o mais feliz dos seres. Garotos e garotas que dizem que não querem viver, pois, afinal, a vida é um tédio... estão falando de que e para quem?
O sentimento de impotência freqüente e insistente destes jovens redunda no seu oposto: a onipotência. E para fortalecer essa onipotência toda substância química é bem vinda, assim como toda arrogância e consumo que os façam “melhores” preenchendo uma fraqueza imensa. Por isso é preciso desprezar índios e mulheres, pobres e travestis considerados seres de segunda classe.
Temo que os jovens apenas atuem algo latente e presente no barril de pólvora que é a sociedade brasileira. Uma sociedade feita de elites (sejam elas quais forem...) também cheias de pretensão e desprezo por aqueles que não atingiram o posto de “celebridade”, algo tão medíocre que custa a acreditar que os seres humanos inventaram tal idéia.
Se colocar no lugar do outro de modo verdadeiro talvez seja o começo para uma profunda mudança social, na qual indivíduos e sociedade precisam honestamente se comprometer.
Devanir Merengué
Psicólogo, Psicodramatista, Docente no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas.