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Confraria: casa-família, rua e escola

A formação e desenvolvimento de uma criança, mais fundamentalmente a do adolescente, se faz através do que eu denomino confraria: casa-família, rua, escola. Na casa se dá o acolhimento afetivo, a manutenção física e material, a delimitação de comportamentos e a transmissão de valores familiares transgeracionais. A rua é o contexto que possibilita a abertura para um mundo maior, ainda próximo e palpável, com suas próprias regras e leis, semelhanças e diversidades, propiciando contatos, ora acolhedores, ora hostis, oferecendo a possibilidade de pertencimento a grupos, configurados em patotas, turmas, bandos, mas, também, a gangues. Na rua se dá o lúdico, a confrontação de valores, a aquisição de experiências, a possibilidade da transgressão de algumas regras. A escola se encarrega do desenvolvimento intelectual, da transmissão de conhecimentos, de normas de conduta e de valores éticos e morais, universais. Aí se faz a descoberta de um mundo muito maior, ainda distante, mas importante para uma comparação com o mundo da casa e da rua. Pressupõe-se a escola como uma extensão do lar, facilitador da sociabilidade e da formação de vínculos afetivos; aí se constroem fortes amizades, as primeiras paqueras e até os primeiros namoros.

O jovem, para cumprir sua adolescência, depende dessa “confraria”- verdadeiro ego-auxiliar no percurso dessa agitada transição criança-adulto. Nunca precisamos tanto de alianças como nessa fase, daí a maior importância da convivência grupal.

E como estão, hoje, esses contextos? A vida familiar se enfraqueceu: casas ocupadas por moradores isolados em seus quartos, munidos de televisores e computadores. Vazios prenchidos por contatos em chats ou orkuts. A rua - caminho para fora, para a diversidade, o ainda perto que direciona para o longe – perdeu seu papel de cuidadora da criança e do jovem que se faria adulto, agora é território perigoso e proibido, lugar para não se estar. A sociedade procurou a solução nos muros elevados, nas grades e alarmes, nos condomínios fechados, nas favelas labirínticas. Favoreceu-se a formação de guetos sociais. Protegeu-se a vida física e os bens materiais, perdeu-se a identidade social, a cidadania, a possibilidade de se desfrutar desse mundo maior.

Com o enfraquecimento da vida familiar e o desaparecimento da “boa rua”, a função de acompanhar os jovens em sua formação recaiu, muito mais, sobre a escola. Despojados da casa e da rua os adolescentes transferiram esses contextos para a escola e nela acentuaram o exercício do desafio e da desobediência, demandando, ao mesmo tempo, a tolerância e acolhimento, que seriam próprios da vida afetiva parental. A escola não deu conta de tamanho encargo, como também não o conseguiriam, nem a casa, nem a rua, isoladamente.

Antes, tínhamos as escolas públicas como grande espaço de interação de classes sociais e variadas culturas, a mescla dos diferentes em convivência, importante passo na formação da cidadania. Essa era a marca do nosso antigo Culto à Ciência. A escola se privatizou, separou as camadas sócio-econômicas, promoveu a homogeneização, o empobrecimento da identidade. O desinteresse, a apatia, o desrespeito, a rebeldia, a violência, fizeram-se presentes. Nas falhas dessa confraria o jovem perdeu a grande oportunidade de se constituir, de desenvolver seus potenciais, de liberar sua espontaneidade criativa. A vida grupal é uma necessidade básica do homem, significativa para o desenvolvimento do apego, do amor, da vida relacional. Os “aparthaid”: sociais, econômicos, étnicos, afetivos, ideológicos ou intelectuais, só empobrecem a evolução humana. Os grupos sem alguma heterogeneidade reforçam a segregação e o preconceito. É na convivência grupal que acontecem as maiores possibilidades relacionais, determinantes para o desenvolvimento, não só da infância e adolescência, mas, também, de toda vida adulta.

Através de um olhar psicosociodramático, enxergamos o resgate dessa confraria: casa-rua-escola como a grande possibilidade de recuperação da vida grupal, matriz de liberdade e de transformação.Projetos sociátricos, executados por serviços e agentes sociátricos, se encarregariam de cuidar das famílias, das escolas, das ruas, dos locais de trabalho, das instituições e organizações de várias naturezas. Cabe, agora, aos nossos homens públicos, aos dirigentes institucionais, aos nossos governantes, a viabilização de políticas que priorizem os vários tipos de grupos como “lócus” da saúde social e pessoal.

Luís Falivene R. Alves
Médico Psiquiatra, Psicoterapeuta Psicodramatista, Professor-supervisor no Instituto IPPGC de Campinas 

 

 
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