Em uma viagem para a Ilha de Marajó, em um mês de janeiro, antes das chuvas, caminhava por uma exótica praia: as raízes aéreas das árvores produziam um cenário fantástico e ao mesmo tempo estranho, assim como a amplíssima faixa de areia de um mar e rio, com sua água salobra. Na água morna e deliciosa, poderiam ser encontradas, por azar, arraias, animais mansos se não forem pisoteados. Para desfrutar da água, portanto, seria preciso caminhar arrastando os pés. O local podia ser metáfora da vida: linda, perigosa, cujo desfrute vai depender de critério e de conhecimento.
O mal e o bem se misturam e se inscrevem na história. Nada acontece fora dela, por mais que nós, seres humanos, desejaríamos que assim fosse. Existe um modo do mal se expressar que é absolutamente concreto – um assassinato de uma criança indefesa. E tantos outros modos disseminados, aparentados com o bem, ambíguos demais para nossa condição humana. Gostaríamos muito de saber exatamente o que é o bem e o mal, mas isso está sempre embaralhado. As crianças fazem essa divisão para se protegerem de um mundo demais complexo para elas. Por isso, as fadas e as bruxas. E, tristemente, a maioria dos adultos nunca sai dessa condição maniqueísta. Frequentemente, o mal é visto como estando fora nós, nunca dentro de nós, imiscuído nas nossas relações sociais.
Para nós é um alívio não ser parente de um assassino, nem ao menos distante. Posso, assim, sentado na minha confortável tranqüilidade de quem nunca-faz-mal, acusar, escrever cartas para jornais, freqüentar ruas nas quais moram os supostos assassinos para gritar e pedir justiça.
Sim, o mundo precisa de Justiça. Ao que parece, desde sempre. O desamparo humano é algo extremo: os deuses não cuidam de nós, nem a policia, nem o governo. Se isso “não é verdade” para algumas pessoas, me perdoem, mas esse sentimento de abandono é freqüente para muita gente. Estamos esquecidos no planeta terra, tendo a morte pela frente. Convenhamos: existir não é fácil. A vida é feita de acontecimentos belos e tristes, doces e amargos. Precisamos, maduros ou imaturos, enfrentá-los.
Muitas religiões infantilizam os crentes para melhor controla-los. Muitos governos e ordens políticas instauram meios para tornar a população ideologicamente dependente. E tantas famílias têm uma enorme dificuldade em deixar seus filhos crescerem. Se na população de baixa renda a dificuldade em crescer está associada à falta de tudo, na classe média e na classe alta essa dificuldade deve-se, no meu ponto de vista, a uma política familiar de excessos.
De qualquer modo, em qualquer classe social ou cultura, sendo homem ou mulher, criança, adolescente ou adulto a vida é um labirinto cheio de escolhas. O crescimento acontece quando caminhamos por ele, enfrentamos seus desvios e armadilhas, e refletimos sobre nosso percurso. Isso não acontece sem dor. A dor é assustadora, mas também o prazer. Sentir muito prazer, ou muita felicidade, não parece ser o estado natural dos seres humanos. Tantas vezes nem entramos em situações de grande prazer ou felicidade, pois sabemos que, depois disso, pode acontecer uma enorme queda. Evitamos, sempre, o desprazer. Temos medo do amor, das grandes paixões, dos grandes riscos não exatamente pelas coisas boas advindas, mas pelo temor do buraco que surgirá caso estas coisas boas desapareçam.
A vida, no entanto, não perdoa os que não entram no seu fluxo. Aqueles que ficam na periferia da vida, sem sentir seu doce e seu amargo. Não se trata de sucesso ou de felicidade e sim de desfrute. Aos espectadores da vida, apenas a condição de manada. A praia estava lá com a tepidez da água e o horror da arraia.
Entrar na água, correndo os riscos, é conhecimento. Entrar muitas vezes, em muitas e distintas águas, é coisa de quem está sempre e sempre crescendo. E não de ingênuos que se escondem atrás de instituições, teorias, ideologias, para, na verdade, se esconderem da dor e do prazer.
Alguns conceitos de Jacob Levy Moreno, o criador do Psicodrama, são fascinantes. Um deles, a noção de momento, diz respeito a um viver criativo. Não basta a vida, pura e simples, com os instantes contados no relógio, mas um viver que inclua o fluxo criativo, muito para além do bem e do mal, um mergulho intenso na história para transformá-la.
Devanir Merengué
Psicólogo, Psicodramatista, Docente no Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas.