A responsabilidade pela saúde mental não se restringe aos psicólogos, psiquiatras e demais profissionais da área. Estende-se a todos os segmentos sociais.
Para discutir uma linha específica de responsabilidade, a dos meios de comunicação de massa, permito-me tomar como paradigma o caso recente da morte da garota Isabela.
Mobilizados pelo caráter hediondo do episódio, os órgãos de imprensa deram a ele um destaque especial. Um dos critérios para o destaque é a opinião pública: sendo as notícias acompanhadas com interesse, convém investir nelas, tanto pelo dever de informar como porque o que sustenta um veículo é a resposta da sociedade ao seu trabalho. O interesse estimula o noticiário da mesma forma que o noticiário estimula o interesse.
Há muitas questões éticas envolvidas na forma como os assuntos são abordados, mas o enfoque, aqui, é outro: a saúde mental. Para tanto, pinçamos alguns fenômenos que apareceram em nossas sessões de psicoterapia.
Um deles: as meninas chamadas Isabela chegaram a sofrer, na época, uma espécie de assédio moral por parte das outras crianças, que as discriminavam e as apontavam como futuras vítimas de seus pais. Sentiam medo e apresentavam vários distúrbios de comportamento associados a essa pressão.
Outro: crianças relatavam pesadelos, pânico, recusavam-se a ficar a sós com seus pais (homens), com medo de serem atiradas pela janela. Perdiam segurança.
A rejeição pelas madrastas é uma tendência já esperada, via de regra, nos casos de reconstrução familiar. Mas na ocasião foi pior: elas foram vistas como a versão contemporânea das madrastas-bruxas das histórias infantis, dispostas a eliminar as enteadinhas.
Adultos normais se assustavam com os próprios sentimentos: idéias agressivas, medo de perder o controle e de cometer algum desatino. Tais fantasias nunca se concretizam, porque o bom senso e os valores acabam imperando. Só que o destaque dado ao que aconteceu com Isabela, induziu uma avaliação distorcida desse componente normal do psiquismo.
Por esses exemplos, pode-se perceber o efeito danoso causado pela exploração do incidente na grande massa de pessoas que acompanham o noticiário. Todo mundo comenta, a indignação freqüenta todas as rodas. Quem não se interessava, passa a se interessar.
Só que os eventuais aspectos positivos da indignação coletiva acabam sendo superados pelos muitos males que o sensacionalismo provoca.
Nessa circunstância, os pais precisam conversar com seus filhos e ouvi-los, para avaliar a natureza e a intensidade do impacto que as notícias exercem sobre eles. E, medida prática, afastá-los do noticiário, sempre que o assunto for abordado. Se for o caso, mostrar a eles que não correm nenhum risco.
Os educadores precisam abrir o assunto, refletir com os educandos, de todas as idades, sobre as possíveis causas do fenômeno em pauta, especialmente seu substrato social, a violência do cotidiano. Isso, além de chamar a atenção para o efeito do noticiário sobre os próprios alunos e sobre a sociedade.
Os comunicadores sociais precisam rever seu papel. Ponderar a potência de sua atuação e sua responsabilidade como produtores de saúde mental. Controlar seus próprios instintos mórbidos, o gozo de expor as entranhas das tragédias. Cuidar-se da tentação sensacionalista. Avaliar o quanto a insegurança coletiva tem a ver com o destaque que se dá aos fatores de insegurança coletiva.
Impõe-se também uma revisão dos métodos de investigação criminal. Devem correr em sigilo os inquéritos e processos que envolvem casos cuja repercussão na opinião pública implica riscos de epidemia mental. Não para favorecer os criminosos, mas para não ampliar os efeitos deletérios de seus atos, para não gerar problemas sobre problemas.
Enfim, todos temos algo a fazer. É imperativo encontrar formas criativas de nos protegermos – e aos nossos filhos - desse verdadeiro tsunami psíquico.
Não nos esqueçamos, ademais, que o linchamento moral implica o risco da injustiça, com danos irreversíveis. Que não se limitam, como no caso Isabela, aos supostos autores dos crimes: atingem seus familiares e, por extensão, em alguns casos, até mesmo pessoas inocentes são estigmatizadas, só porque moram no mesmo bairro ou freqüentam a mesma religião. Um altíssimo custo social. Ou seja, todo cuidado é pouco.
Moysés Aguiar
Psicoterapeuta e psicólogo social, professor do Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas. Autor de vários livros publicados no Brasil e no Exterior.